sexta-feira, março 23, 2007

Humanização???


Hoje eu literalmente chorei no hospital.
Fazia tempo que algo não me tocava tanto.
Sempre fui uma profissional que não consegue desvincular as emoções da práxis diária. Mas, geralmente, consigo segurar as demonstrações. O que não é fácil, pois faz com que a gente chore por dentro.
Mas hoje as lágrimas rolaram, literalmente, pelo meu rosto.
Fui à quimioterapia com alguns alunos. Enquanto eles observavam a unidade, eu ouvia um choro intenso de criança. Saí pelos corredores procurando.
Ao passar em uma sala de procedimentos com a porta aberta, vi uma menina, de uns 7 anos, muito magra e evidentemente muito descuidada. Ela chorava muito. Estava completamente sozinha naquela sala, deitada sobre uma maca dura. Sem nenhuma coberta. Sem ninguém para acompanhá-la. Os pais a deixaram no hospital. Ela tem leucemia. Seu nariz sangrava muito. Seu braço doía devido às constantes punções e à medicação quimioterapica.
Perguntei seu nome: Gabriela.
Gabriela estava assustada. Fiquei um pouco com ela. Passou o médico e perguntou secamente se ela não iria parar de chorar nunca. Ele não agüentava mais.
A enfermeira comentou que era um saco aquela menina. Chorona.
Fiquei muito triste.
Será que eles não conseguem ver? Será que seus diplomas e seus títulos de mestres e doutores lhes deixaram burros? Será que ensinei isso pra eles?
Será que não conseguem ver que o que mais dói naquela menina é sua alma. É seu abandono?
É a falta de carinho?
Fiquei alguns minutos afagando seus cabelos até que parasse de chorar.
Mas precisei ir embora. Meus alunos me esperavam.
Pedi para uma funcionária ficar com ela. Me olhou com cara de quem via uma maluca.
Não sei se ela ficou ali.
Sei que saí dali com o coração pesado. E lágrimas rolando pelo rosto.
A imagem não sai da minha mente.
Me sinto frustrada com meus colegas.
E impotente.

13 comentários:

Priscila disse...

Ai, Mô, que história triste...
Não sei nem o que dizer...

Mônica disse...

Triste, muito triste.

Clari Ro. disse...

:-(

D. disse...

se fosse comigo, eu juro que cagava a pau essa gente. ia presa, mas cagava a pau.

desculpa as palavras, mas isso me revolta.

Mônica disse...

A mim também Dani. Não tem como não revoltar.

Daniel disse...

Tem umas pessoas que só pegam no tranco. Esses aí precisam de um bem grande. Eu queria só a oportunidade de estar presente quando eles precisassem de ajuda semelhante. Ia ser lindo.

Mônica disse...

É Daniel. Fico pensando porque essas pessoas resolveram ter uma profissão que cuida dos outros. Não dá pra trabalhar nessa área sem gostar de gente...

Kelen disse...

Desde que a minha vó morreu, e eu vi ela ser totalmente desprezada pelas enfermeiras no hospital, eu defini que aquela prova de aptidão que artistas plásticos ou músicos são obrigados a fazer, deveriam ser obrigatórias também para pessoas que vão trabalhar diretamente com a vida e a sáúde das pessoas. Algumas pessoas simplesmente não tem sensibilidade pra isso e nunca deveriam ter escolhido esta profissão.

Mônica disse...

Concordo Kelen. Felizmente essas pessoas são a exceção e não a regra.

Plinio Nunes disse...

Obrigado por sua visita.
Parece mentira minha, mas não é. Hoje à tarde, quando li teu post sobre o hospital, fazia poucos minutos que eu havia comentado com uma colega sobre um assunto que muito me intriga e que até já coloquei no vidacuriosa: é que boa parte das pessoas que criam ongs e associações, fazen-o depois de ter enfrentado uma tragédia ou vivido a situação com um parente. É preciso sentir na carne para entender uma realidade que também é comum aos outros. Sobre a insensibilidade relatada no hospital, observo que profissionais de áreas "pesadas" tendem a achar mais "normais" as tragédias que encontram. Acham que enlouqueceriam se se emocionassem com tanta freqüência. Mas há quem não perca a sensibilidade jamais. Relatos como teu me mostram que nem tudo está perdido.
Abrs.

Plinio disse...

"boa parte das pessoas que criam ongs... fazem-no e não fazen-o.
Abrs.

Mônica disse...

Oi Plinio. Recuperado do acidente? Fiquei feliz em ver que voltaste ao blog.
Pois é. È muito complicada essa coisa da banalização do sofrimento, tem-se que pensar no sofrimento psiquico desses trabalhadores. Me propus, nesses dias, a tentar trabalhar mais isso com os meus alunos, de forma a melhorar essas relações. É o que está ao meu alcance nesse momento.

Gabi disse...

Achei isso tão deprimente, mas tão deprimente ... na mesma hora, pensei: "se fazem isso com uma criança, imagina o desrespeito a um animal...".
E é assim que começa, a gente precisa aprender a respeitar os pequenos em primeiro lugar, aqueles que não têm voz, que precisam mais do que nos do que imaginamos ...
Eu, ainda mais gravida agora (piora tudo) tiraria essa menina desse lugar ! =(